Não me ensinaram a descansar

Muitos trabalham de casa hoje em dia e estão perdendo o direito de descansar

Por todo lado, vemos livros, textos, vídeos, posts, ensinando-nos a ser mais produtivos. São milhares de técnicas, ferramentas, apps, frameworks, filosofias, que dizem onde devemos focar nosso tempo e esforço.

Lembram-se do começo da pandemia? Quando diziam que teríamos dezenas de horas extras para aprender um novo idioma, praticar ioga e meditação, ler muitos livros, fazer pão caseiro, nos tornar pessoas melhores?

Sempre vale fazer o lembrete de que são poucos os privilegiados que podem trabalhar de casa. Muita gente não teve essa sorte e ainda se arrisca por aí, andando de transporte público, se expondo para que as atividades básicas não parem totalmente.

Faz mais de um ano que estamos trabalhando de casa. Alguns mudaram de emprego, outros foram demitidos. Houve quem começasse um novo negócio de casa, pela internet. O fato é que nossas casas se tornaram o ambiente de trabalho. Não há mais separação entre os ambientes, os horários ou as tarefas.

Eu, por exemplo, escrevo este texto num domingo à tarde, enquanto Simpsons passa na TV.

Por que isso importa?

Trabalhando em casa, tudo se confunde. Como eu disse, os horários se misturam sem que percebamos. Com o celular em mãos, estamos disponíveis para resolver qualquer problema, não importa se estivermos na cama, acordando —ou indo dormir. O que antes era compartimentado, agora começa a virar uma coisa só.

Da mesma maneira, nossos finais de semana entram na dança. Por que não “tirar da frente” no sábado de manhã algo que ficou pendente? Ou talvez “dar uma adiantada” em tarefas da semana no domingo à noite? Faz todo sentido, certo? Otimizar nosso tempo!

Passei por isso quando me tornei autônomo, em 2011. Sabia que meu “salário” dependia do quanto trabalhasse. Então, raciocinei na época, qualquer tempo ocioso poderia ser dedicado ao trabalho. Comecei aceitando trabalhos para cobrir eventos nos fins de semana. Mas fui além.

Em 2014, eu trabalhava como doido. Felizmente, tinha mil “jobs” para fazer, o que significava que o dinheiro entrava. No entanto, meus sábados e domingos estavam tomados pro tarefas. Não se tratava mais de adiantar coisas. Estava trabalhando tanto que precisava desses dois dias extras para dar conta de tudo.

Formou-se um círculo vicioso. Aceitava trabalhos sem parar porque precisava do dinheiro. Mas o tempo era escasso e meu descanso acabou sacrificado. Conforme ficava mais cansado, menos conseguia produzir. E precisava trabalhar mais horas para dar conta de tudo.

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O que aconteceu?

Nesse mesmo ano, comecei a ter uma alergia. Meu corpo ficava coberto por placas. a pele se irritava. A boca, os lábios e os olhos inchavam. Os pés também. Perdi o casamento de uma grande amiga porque não consegui calças o sapato. Tive de ir embora de um show que queria muito ver porque minha língua inchou e fiquei preocupado.

O médico ficou um tempo tentando entender aquele fenômeno: eu estava comendo um queijo diferente? Tinha mudado a marca do desodorante? Algum remédio novo? Nada disso.

Depois de um tempo, ele percebeu que eu estava muito estressado e ligou os pontos. A alergia era emocional. Ela só foi embora quando comecei a diminuir um pouco a marcha. Preocupada, minha analista recomendou que eu conversasse com um psiquiatra. Em seguida, veio o diagnóstico: ansiedade generalizada e depressão.

O resto da história vocês conhecem. Estou em tratamento desde 2015. A alergia não voltou. Mas morro de medo que aconteça tudo de novo.

Por isso, deixo esse alerta. Descansar é essencial. Sei que existem cenários em que não temos escolha. Mas não está certo dizer às pessoas que, quando elas descansam, estão perdendo tempo. Não estão. Precisamos desse tempo para processar informações, fixar memórias, revigorar o corpo e a mente.

Nós, os poucos privilegiados que trabalham em casa, não podemos ser enganados. Estar em casa não significa que devemos abrir do nosso tempo livre. Já dispomos de muito pouco, especialmente as pessoas que cuidam da casa, dos filhos, de parentes. As mulheres, estamos cansados de saber, têm jornadas duplas ou triplas.

É irônico escrever isso em pleno domingo, eu sei. Mas não queria perder o momento de inspiração. Agora vou levar a cachorra para passear, procurar um jogo de futebol da TV, esquecer do trabalho.

Em um mundo ideal, todos teríamos direito ao descanso. Infelizmente, é preciso lutar por ele. E vale a pena.

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