Não fuja do seu medo

Entenda que ele foi um dos fatores que ajudou a humanidade durante sua evolução como espécie

Quando o isolamento social começou, há quase um ano, centenas de sites e perfis em redes sociais listaram cursos, programas de exercícios físicos, aulas de ioga, áudios de meditação e receitas imperdíveis. A recomendação geral era: "aproveite o tempo que você ganhou de presente para evoluir e se transformar". 

Critiquei essa inocência que, quero crer, foi bem intencionada. O argumento principal de um texto que publiquei numa revista foi o de que não vivemos um período feliz, agradável ou proveitoso. Estamos com medo de uma doença que parou a economia mundial, colocou bilhões de pessoas em casa à força e ameaça matar pessoas queridas. 

Depois, em outra coluna, alertei para o fato de que a pandemia do coronavírus vai potencializar o aumento nos transtornos de saúde mental. A Fundação Oswaldo Cruz publicou três cartilhas com recomendações para cuidar da saúde mental no contexto em que vivemos. 

"Estima-se, que entre um terço e metade da população exposta a uma epidemia pode vir a sofrer alguma manifestação psicopatológica, caso não seja feita nenhuma intervenção de cuidado específico para as reações e sintomas manifestados." Reparem que o texto não especifica se tais consequências podem afligir apenas pessoas que estão em isolamento social. A mera exposição à pandemia é suficiente. Obviamente, as pessoas que são obrigadas a trabalhar, como médicos, enfermeiros, técnicos, entregadores, trabalhadores da construção civil, entre centenas de outros, correm mais riscos em todos os sentidos. 

Dentre os medos que podemos sentir durante a pandemia e que são listados pela Fiocruz estão: adoecer e morrer; perder as pessoas que amamos; perder os meios de subsistência ou não poder trabalhar durante o isolamento e ser demitido. Algumas das consequências deste período de tensão são, ainda de acordo com a fundação, "pensamentos recorrentes sobre a epidemia; pensamentos recorrentes sobre a saúde da nossa família; pensamentos recorrentes relacionados a morte e ao morrer".

E por que estas informações são importantes? Porque, como eu já argumentei outras vezes, é preciso sempre ter em mente a dificuldade do momento em que vivemos. De novo, não acho que quem extrai coisas positivas durante a pandemia o faz motivado por más intenções. Faço análise há mais de uma década e sei bem que momentos difíceis nos ensinam muito. 

Mas lembro que estamos no meio da crise, no olho do furacão. Não temos ainda noção de como será o futuro. Sentir medo é uma reação absolutamente normal. Especialmente sem poder prever o que os próximos reservam para nós, nossa família, nosso bairro, nossa cidade, estado, país; para o mundo. Ser produtivo nestas condições é um hercúleo desafio. A capacidade de sentir prazer e alegria é sempre bem-vinda, mas não pode ser obrigação. Não era saudável antes da pandemia e não o é agora.

Diversos estudiosos da sociologia e da psicologia já explicaram que momentos de perda referências, especialmente em alta velocidade, deixam a humanidade desnorteada. Com razão, a grande maioria de nós fica temerosa, confusa, aflita. O necessário agora é o acolhimento desses sentimentos porque há ainda menos respostas do que havia antes. 

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Respeite seu medo. Entenda que ele foi um dos fatores que ajudou a humanidade durante sua evolução como espécie. Tente, se possível, observá-lo para mapear que caminhos percorre em sua mente. E se as coisas ficarem pesadas demais, procure ajuda. Fale com um psicólogo, um psiquiatra.

Não se sinta culpado por ter medo.