Por que estamos sempre tão cansados?

Olhe para a tela do seu celular: quantos aplicativos você tem? Quantas vezes acessa as redes sociais por dia?

Cansaço. Esta palavra tem aparecido com frequência na mídia, na rua, nas conversas de bar. Burnout é um dos seus sinônimos da moda. Outra evidência de sua constante presença nas grandes conversas nacionais é a ideia de autocuidado, tirar um tempo para si. Quantas escolas de ioga não abriram de cinco anos para cá? E quantos aplicativos de meditação apareceram nas lojas das empresas de tecnologia?

Eu, tu, eles, cansados. Nós, vós, eles, exaustos. 

No livro "Sociedade do cansaço", o filósofo alemão Byung Chul-Han define a nossa época pela "violência neuronal" que pratica. As doenças marcantes são a depressão, o déficit de atenção com síndrome de hiperatividade, transtorno de personalidade limítrofe, e a tão citada síndrome de burnout. Segundo Chul-Han, a culpa é do excesso de positividade. Como assim?

O filósofo explica que nossas sociedades são caracterizadas por "superprodução, superdesempenho ou supercomunicação". A reação a isso é o esgotamento. Por que? Tal reação vem de um excesso de consumo, digamos assim, de uma atitude em relação ao mundo em que nos vemos obrigados a absorver coisas: demandas, produtos, imagens, tendências. Este fluxo leva à saturação: imagine um copo que continua a ser enchido mesmo após cheio. 

Nossa sociedade é definida pelo pensador como uma em que o desempenho é o elemento central. Somos, segundo diz, empresários de nós mesmos. Faz sentido, não é? Cada vez mais cidadãos são autônomos, abrem seus negócios, trabalham de casa ou de qualquer lugar. Antigamente, íamos a um local físico para trabalhar (e estudar): uma fábrica, um escritório ou ambiente até o qual precisávamos nos deslocar e onde passávamos o dia. Isto está mudando. Vejam, por exemplo, as escolas chinesas. O surto de coronavírus obriga os alunos a ficar em casa, mas as aulas continuam acontecendo por meio da tecnologia. 

O novo modelo substitui a "proibição, mandamento ou lei", que já foi característico de nossas sociedades, por "projeto, iniciativa e motivação". Parece insignificante a diferença, mas não é. Não precisamos mais obedecer a um chefe, um mestre, a uma figura de autoridade. Devemos obedecer "apenas a nós mesmos", diz Byung Chul-Han. A mudança de perspectiva causa mudanças importantes. 

Em primeiro lugar, os vínculos são enfraquecidos, consequência da "crescente fragmentação e atomização do social". Freelancers, por exemplo, podem trocar infinitas informações e mensagens com clientes sem precisar estar fisicamente com eles em nenhum momento de um projeto. Diversos pesquisadores têm investigado os efeitos psíquicos dessa nova maneira de viver. 

Um deles, claro, é a depressão. Frente à necessidade de produzir, propor, imaginar, executar e desempenhar, o cidadão se vê obrigado a "explorar a si mesmo", define o filósofo. "É agressor e vítima ao mesmo tempo." Tenho familiaridade com esta ideia. Meu diagnóstico de depressão veio justamente em um momento em que eu estava trabalhando em diversos projetos simultâneos, tendo que dar conta de muitos prazos, conceitos e tarefas. Fazia tudo isso praticamente sozinho em casa, sem papo na hora do café. 

O mais perverso é que esse modo novo de viver não se limita ao trabalho. Com dispositivos informacionais ao alcance das mãos, estamos também sendo bombardeados 24h com a possibilidade de acessar os chamados "conteúdos": textos, fotos, vídeos, memes, ideias, tweets, emojis, stickers, jogos, um miríade de canapés informativos. Caso nos entreguemos ao canto das sirenas digitais, não teremos mais tempo para pensar ou contemplar. Há sempre algo a se fazer, notificações que precisam ser checadas, timelines de rolagem infinita que nos levam a lugar algum. 

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Para terminar, gostaria de descartar o alarmismo e a tecnofobia. Melhorias técnicas podem ser positivas para a humanidade, sem dúvida. Desejar a volta de tempos que o conhecimento era ignorado em nome de autoritarismo e submissão me parece insensato. Mas é difícil negar que a sociedade está notavelmente despreparada para lidar com o cenário que se vislumbra para as próximas décadas. Enquanto isso, as pessoas se sentem perdidas, cansadas e zangadas. 

Talvez as soluções venham do exame cuidadoso das consequências de nossas inovações. Talvez venham do resgate de valores fundamentais de sociedades que prezam pela justiça e igualdade de seus cidadãos. Provavelmente, virão da junção destas duas propostas. Por enquanto, estamos cansados. Mas estamos longe de desistir.